quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Posições temáticas Parte 1: Ataque duplo de cavalo

Um bom livro de tática ajuda a aguçar nossa percepção nos mais variados assuntos. Hoje falaremos sobre o ataque duplo de cavalo, onde o leitor perceberá como as posições temáticas podem desenvolver nossa habilidade de encontrar a melhor solução através de algum recurso tático em uma determinada posição. Vejamos o exemplo do diagrama 1, onde as brancas jogam e ganham. Pensemos um pouco antes de buscarmos a solução (Botão SOLUÇÃO). A vantagem material das brancas (cavalo) é grande, porém demandarão muito tempo até que consigam converter em vitória, visto que as negras possuem dois peões pelo cavalo e ainda ameaçam um mate em “e1”, no entanto, as brancas possuem um recurso tático que lhes possibilitarão resolver esses problemas rapidamente. Que recurso é esse? (Lembre-se do tema em epígrafe: Ataque duplo!). 


Muito bem, agora que o leitor observou e solucionou o exemplo acima, talvez será mais fácil resolver o problema a seguir (Diagrama 2). Nesse exemplo, um pouco parecido com o anterior, a vantagem material é das negras, que possuem uma dama por Torre e Cavalo, no entanto, são as Brancas que jogam e possuem uma boa chance de resolver a situação a seu favor. Como as brancas devem prosseguir? 


Por fim, um exemplo mais sutil (Diagrama 3), onde um recurso tático oculto dá as negras uma grande vantagem material, mas lembre-se que tal recurso está em conformidade com o tema em questão, ou seja: o ataque duplo. Tente descobrir antes de ver a solução.


Esse breve tratado sobre o ataque duplo de cavalo demonstra como um determinado tema pode nos nortear em determinadas posições, diminuindo o tempo de análise e conseqüentemente, evitando o apuro de tempo. Desenvolve o raciocínio rápido e nos possibilita melhor desempenho em partidas de modo rápido (5 min./15min./30min.). Na próxima parte falaremos sobre “debilitamento do roque”, demonstrando alguns temas táticos que facilitarão em muito a sua percepção nesse tema muito interessante.

Só a vitória interessa!

Wang Hao venceu (19 pontos) o torneio de Grandes Mestres em Biel 2012 (Suíça), seguido de Magnus Carlsen (18 pontos), pelo sistema de três pontos por cada vitória e 1 ponto por empate. No sistema convencional (1 ponto por cada vitória e ½ ponto por empate), Magnus Carlsen ficaria em primeiro lugar com 6,5 pontos contra 6,0 de Wang Hao, mas o que estava valendo era pelo sistema de 3 pontos. Esse novo sistema, já adotado pelo FIFA (futebol), valoriza a vitória e proporciona um espetáculo mais acirrado pela conquista de um título. Todos tendem a ganhar, tendo em vista, no sistema antigo, o empate em muitos casos caracterizar um jogo de desinteresse (pouca luta) ou até mesmo de atitudes anti-desportivas, beneficiando "determinados" jogadores (a famosa panelinha), que muito vemos por aí. Quem sabe definitivamente poderemos contar oficialmente em todos torneios esse novo sistema de três pontos... quem sabe!


Wang Hao


ELO
gamespointsSoBerg
1.Wang Hao2739CHN1019
2.Magnus Carlsen2837NOR1018
3.Anish Giri2696NED101656.00

Hikaru Nakamura2778USA101656.00
5.Etienne Bacrot2713FRA107
6.Victor Bologan2732MDA84


O jovem jogador Anish Giri (2696  Netherlands - NED, 18 anos – 35º no ranking Mundial), que perdeu na última rodada para Wang Hao, decepcionou, tendo em vista ter jogado uma defesa absolutamente fraca, não jogando a altura de Wang Hao. O mais interessante era que Anish poderia ter ganhado o torneio também, caso vencesse Wang Hao. Talvez o nervosismo e a juventude atrapalharam um pouco, principalmente na hora da decisão, mas ele tem todo um futuro pela frente, afinal, tem apenas 18 anos e já está jogando com os tubarões do xadrez.


Anish Giri

Wang Hao possui todos os méritos por esse título, mostrando que a busca pela vitória torna o xadrez muito mais competitivo e atraente. Parabéns ao jovem Chinês que desponta no cenário mundial como uma nova promessa.

Errar é humanamente correto


Durante uma partida de xadrez, daquelas que são transmitidas ao vivo pela internet, muitos de nós gostamos de acompanhar com os programas do lado, para ver se o Grande Mestre executará conforme a “máquina” (Lê-se: Programa de Xadrez). E qual não é nossa decepção quando o lance esperado não está conforme o que o programa de xadrez indica como melhor? Mas será que aquele lance realizado por um Grande Mestre estava realmente errado? Será que o Grande Mestre não viu o “óbvio”? Essas são algumas das tantas perguntas que nos assolam.

Outros fatores levam um Grande Mestre a escolher entre um determinado lance ao invés do “tecnicamente correto”. Um desses fatores pode ser simplesmente o problema do apuro de tempo, quando o relógio começa a ser tornar um vilão, fazendo com que o GM tome decisões rápidas, e portanto, passíveis de erro. Outro fator poderia ser que tal lance “tecnicamente correto” não esteja de acordo com o estilo do jogador, que tende a ter sempre uma postura agressiva, evitando sempre uma posição passiva ou vice-versa. Para termos um exemplo, vejamos a partida realizada no festival internacional de Biel, entre Bologan x Wang Hao (01/08/12), onde Wang Hao optou em assumir uma postura agressiva, quando deveria realizar um lance que lhe custaria uma defesa passiva e prolongada (Diagrama 1).



Diagrama 1, após 40. Te2 (Bologan x Wang Hao, Biel 2012)



Nessa posição, Wang Hao (Negras) optou em jogar o agressivo 40. ... Ce5 ?, considerado perdedor pelos programas de xadrez, que indicavam ser o melhor 40. ... Ce8 abrindo a diagonal a1-h8 para o bispo negro em apoio às torres e dama e mantendo o cavalo para deter o possível avanço do peão “d” das brancas. De certo que 40. ... Ce8 aparentemente tem uma característica passiva, pelo que provavelmente Wang Hao não concordou em assumir, levando-o a manter sua postura agressiva com a investida pela ala da dama (colunas “a” e “b”) combinada com o assalto dos cavalos pelo centro, na intenção de obter um ataque salvador sobre o rei branco. Nesse caso, Bologan (Brancas), apoiou-se no cálculo exato de variantes para nortear-se diante dessa postura agressiva de seu adversário, sendo bem sucedido, visto que ganhou a partida após superar algumas dificuldades táticas. Vejamos o que seguiu: 41. T:b2 T:b2 42. Bd4 Dg3 (essa era a real intenção de 40. ... Ce5), 43. B:b2 (aceitando o sacrifício) 43. ... Cf3+ 44. T:f3 e:f3 45. Dd2! C:d5 46. C:f5! (Bologan está atendo as suas possibilidades sobre o rei negro e também adota uma postura agressiva para finalizar a partida) 46. ... f2+ 47. Rf1 Dh2 48. R:f2 (única) 48. ... B:b2 49. Dh6+ e negras abandonam (Diagrama 2), tendo em vista as inúmeras ameaças de mate e ganho de qualidade. Por ex: 49. ... Rg8 50. D:g6+ Rf8 51. Dh6+ Rf7 52. Cd6+  Re7 53. Dh7+ Rd8 54. Dg8+ Re7 55. Df7+ Rd8 56. De8+ Rc7 57. Dc8 ++ (Diagrama 3).

 
Diagrama 2, após 49. Dh6+
 



Diagrama 3, após 57. Dc8++

Como vemos, caro leitor, determinadas decisões que tomamos muitas vezes se baseiam em nosso próprio estilo, como jogador, do que no cálculo ou avaliação exata da posição. Uma postura passiva para um determinado jogador pode ser inadmissível, no entanto, para outro pode ser apenas uma fase que deva cumprir diante de determinada posição, o que poderemos classificar como “tecnicamente correto”. Para Wang Hao (Negras), o lance 40. ... Ce8 possa ter soado passivo demais ao seu estilo, preferindo as complicações táticas advindas de 40. ... Ce5.


Dificilmente poderemos criticar seu estilo e sua opção por 40. ... Ce5, tendo em vista que, em se tratando de pessoas, o erro se justifica. Nesse caso, o “erro” foi humanamente correto, no entanto, nem sempre é a melhor postura a seguir, visto que no xadrez, como na vida, quem não segue a determinadas regras pode pagar um alto preço por isso.



quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Made in ASIA

Recentemente ocorreu na cidade de Jermuk (Sul da Armênia), o V Gran Prix Feminino realizado pela FIDE, vencido pela atual campeã mundial Hou Yifan (2617 CHN), considerada a melhor jogadora da história depois de Judit Polgar.



Hou Yifan (CHN)


Em vias de terminar (última rodada), o torneio de grandes mestres no festival internacional de Biel (Suíça), encontra-se outro jogador também da China, Wang Hao (2739 CHN – 15º no Ranking Mundial e 1º no Ranking Nacional, com apenas 22 anos), com grandes possibilidades de se tornar campeão, já que figura na segunda colocação, atrás apenas de Magnus Calrsen.



Wang Hao (CHN)

Não se pode negar o quanto a China começa a entrar com força máxima no xadrez mundial, levando a sério a sua inclusão definitiva nesse tipo de esporte. Não se admire, caro leitor, se em pouco tempo tivermos um Campeão Mundial Chinês, pois o atual (2012) nada mais é do que o Indiano V. Anand (2780 IND, 6º do Ranking Mundial). A grande hegemonia Russa, e até mesmo Européia, parece ceder espaço aos países da Ásia, em especial Índia e China, no entanto, os números não mentem: Nos top 100 da FIDE, até o momento, são apenas 6 jogadores chineses, em contra partida a Rússia possui 23 jogadores. A Índia possui 4 jogadores apenas, mas não se pode ignorar que o campeão mundial seja Indiano. Infelizmente nossos Brazukas não figuram no TOP 100, mas em breve teremos alguns de nossos jogadores configurando essa Escol.



V. Anand (IND)

Conceito básico de aberturas – Parte 2


A variante Sveshnikov da Defesa Siciliana é uma das mais populares hoje em dia. Obviamente que não pretendo expor todo um tratado sobre essa abertura, mas sim instigar o leitor a buscar o caminho da compreensão da mesma, aplicando esse método a toda e qualquer abertura ou defesa que queira se aprofundar.

Na primeira parte (Conceito básico de aberturas – Parte 1), vimos sobre a Abertura Ruy Lopez (Variante das trocas), e compreendemos algo em torno da oculta troca em c6 (4. B:c6). A estrutura de peões originada após a seqüência de trocas manteve-se sóbria, sem alguma debilidade aparente, porém com uma pequena vantagem para as brancas (maioria de peões da ala do rei). Na variante Sveshnikov, da defesa Siciliana, o leitor poderá se espantar perante a estrutura de peões que as negras suportam durante a primeira fase do jogo, algo aparentemente fora do princípio posicional clássico.

Vejamos o que surge após a linha principal: 1. e4 c5 2. Cf3 Cc6 3. d4 c:d4 4. C:d4  Cf6 5. Cc3 e5 6. Cdb5 d6 7. Bg5 a6 8. Ca3 b5 9. B:f6 g:f6 (Diagrama 1).



Diagrama 1

Nota-se uma evidente desconexão da estrutura de peões negros, o que denotaria um final praticamente perdido, caso existissem apenas os reis e peões no tabuleiro (Diagrama 2).



Diagrama 2


Obviamente que a simplificação de imediato não é boa para as negras. Em função dessa iminente situação, as negras devem prover de recursos suficientes para não entrarem em uma posição passiva, onde as maiores debilidades são o peão atrasado de “d6” e as debilidades das casas de “f5” e “d5”. Felizmente as negras, nessa defesa, possuem o par de bispos, principalmente o bispo das casas brancas, onde poderão cobrir as debilidades de “f5” e “d5”. Nessa defesa, a meu ver, as peças devem compensar as debilidades na estrutura de peões e o posicionamento das negras. Os recursos ativos vão desde a liberação com o avanço do peão de f6-f5, ações pelas colunas semi-abertas “c” e “g”, posicionamento de um cavalo, por exemplo, na casa “c4” e até mesmo o rompimento central d6-d5. É claro que as brancas possuem recursos equiparados e é por isso que essa defesa, tão em moda atualmente, permite tanto as negras, quanto as brancas, uma partida rica em possibilidades, com ações muito agudas, quando bem jogadas. Cabe ao estilo de cada jogador escolher esse tipo de defesa, mas para incursionar-se nesse mega labirinto de possibilidades, há que se preparar muito bem.

Espero que o leitor amigo não tenha se decepcionado com as análises muito simples que fiz tanto da variante das trocas, da abertura Ruy Lopez, quanto da variante Sveshnikov, da defesa Siciliana. A minha intenção é de demonstrar que quando queremos estudar uma determinada abertura, há a imperiosa necessidade de entender sua essência básica, antes de nos aprofundarmos no emaranhado de variantes. As novidades teóricas serão bem mais compreendidas e nossa capacidade de resolver determinadas situações serão bem mais rápidas. Independente de qual abertura for estudar, lembre-se que ainda pendura uma das máximas de Emanuel Lasker: “Os peões são a alma do xadrez”.